19.6.07

chijimi


Quando as folhas começam a cair com os ventos duros e frios, na Terra de Neve, os dias não são mais que uma pintura de tonalidade cinzenta, nebulosa e gelada. Sente-se que a neve anda no ar. O círculo das montanhas em redor surge agora branco, com as primeiras neves…

…a voz de Shimamura como um sopro de vento respira na vidraça. Saskia percorre o embaciado ainda tépido, desenha linhas e pensa sonhos. A paisagem olha-a de fora, esse olhar frio assegura mais forte a fuga a prende-la ao centro do quarto, às imagens cantadas pelos dedos. Afasta-se da janela, o presente a esbater-se contra as paredes, debruça-se sobre a folha. O poema respira entre a maciez da pele e o aroma de amêndoa…



gravura de Ando Hiroshige, yui (série as estações de Tokaido)

Yasunari Kawabata, Terra de Neve (excerto)

14.5.07

teus olhos impacientes e irrealizáveis...

claude monet
(...)
já não conheço o caminho para o tempo antigo. abro as mãos e as palavras revelam-me mortíferos mistérios.
Saskia e as memórias. deixou-as cair no regaço e olhou a tela. suavemente, os versos formaram-se nos lábios vazios: pela neve sem rasto/caminhou/aquele que busca um amor. o poeta, preenchendo a incerteza dos passos.



(título e excerto, José Tolentino Mendonça)

26.3.07

Erase all the memories


Kasimir Malevitch



Saskia partira sabendo Sorrow desabitando a visão da charneca sangrenta. Caminhava para norte – o voo de aves azulíneas dissera-lhe da cidade branca onde começavam os grandes frios, onde espadas feitas neve apaziguavam a mancha vermelha das casas – nos olhos guardara as margens amanhecidas de flores lilases colhidas em tempo longo, flores raras nas mãos de Sorrow. Foi tempo de morrer, dissera-lhe o último companheiro de Sorrow e Saskia partira, na memória sons incendiados do tropel de cavalos rasgando o horizonte.
Lembrava-se bem desse tempo. caminhara como se os passos conseguissem habitar a ausência mas todos os caminhos se fechavam nesse frio imenso onde repousara a inocência. Sabia que não poderia regressar ainda que os ventos lhe trouxessem rumores dos lugares abandonados e da beleza dos campos de trigo.

Pousado o livro na desabrigada recordação dessa tarde, Saskia lia. Mas Saskia não lia, os signos fechavam-se aos seus olhos, os dedos teciam vozes soltas sobre as páginas brancas E a neve tomando conta de tudo...

8.3.07

in my dream you're playing with buckets of sand*



a memória enleava-se na pele de Saskia, cadência maligna embalando a memória. pensava na cidade emudecida ao bravor da peleja, Beja calando as palavras, as vozes, nem um rumor desatara a seda húmida dos lenços apertados nos punhos. e a voz que nada dissera em estremecimento na boca de Saskia queimando-lhe a boca: o que faço eu aqui se todas estas noites cresce-me aos olhos a mágoa de Sorrow pela morte do seu Lidador se trago pelo corpo a sua ausência o que faço eu aqui se cubro o rosto e as mãos não estendem o esquecimento - pensamentos na noite adormecida por sobre a neve, Saskia percorrendo as páginas do livro de Ale Laisuma e por dentro os cadernos de Sorrow gritando fios de sangue e nem havia uma melodia de estrelas secando lágrimas ou movendo o silêncio feito pedra, da noite nessa noite.





foto de katia chausheva

* Guillemots, if the world ends

2.3.07

zoran musik
venice

vinham de muito longe as vozes, enlouqueciam as vozes, parti para não ouvir a morte nos campos, murmura-se Saskia. e na cidade vazia a sombra de Sorrow esbatida em tons ocres, arroxeados, as mãos rubras de sangue as mãos rubras do amor apenas desfeito e a dor no corpo de Saskia a dor abafando o grito devorando a noite melancólica noite sobre os que vagueiam no fundo da noite. Sorrow despontando em lenda no corpo de Saskia sabendo-se longe de tão longe se sabendo.

27.2.07

butterflies & hurricanes II

butterflies & hurricanes

Ana Sophia Pereira

(dos Cadernos de Sorrow)


(...)

Saskia partia e eu do outro lado do mundo a sabê-la longe, muito longe. Ou talvez para sempre longe. Saskia vinha de encontro à língua, e eu a dizê-la em línguas que o corpo desconhecia. E o amor então nas mãos, o amor então nas mãos: Saskia partia e eu do outro lado do mundo, na hoste de Gonçalo Mendes da Maia, meu Lidador, a reconstruir em cada golpe as magias de seu corpo, na curvatura de cada mouro o desenho de seu corpo. Saskia partia e eu regressando a Beja, o meu Lidador morto, e eu a dizer a meus poucos companheiros, de tão brutal combate travado: Saskia parte e eu aqui, do outro lado do mundo, sabendo-la longe, tão longe.

(...)

25.2.07

veneza - san giorgio maggiore

william turner


em voz doce dizia-lhe do fascínio da laguna as cores na direcção do olhar ou da solidão dos invernos, não sabia bem. escrevia 'todo o meu sentir é esta luz'. escrevia, pausadamente, sorriso escondido nas pálpebras. Saskia sabia. Sorrow chegaria ao amanhecer à hora em que se morre no tempo perfeito. Saskia sabia, a essa hora ela já teria partido.

17.2.07

les amants

Pablo Picasso


Saskia e Sorrow, vida fora nesse litoral resíduo da canção, do lado onde os corpos se dançam, se dizem de um nome, se oferecem. E a canção, sempre a canção, como se nada mais os soubesse. Nem mesmo o mundo, o inteiro mundo que ambos aprendiam desde esse primeiro dia em que nos olhos de um os do outro.

14.2.07

a dança II



Sorrow sabia que nenhum outro corpo que não o seu podia aquela tela trazer-lhe diante dos olhos. Ali estivera um dia Saskia, naquela mesma posição, hirta mas balanceada como quem sabe que só amparando a mão na mão amante se pode dar às entregas e por fim sossegar o corpo. Ali estivera, num dia muito antigo, muito distante; ali estivera naquela mesma tarde, a seu lado, sem que o soubessem ambos. Saskia fechava-se-lhe nos olhos e Sorrow voltava a casa, recolhendo da imagem habitada o alimento da sua paixão.

13.2.07

a dança


Saskia saboreava a trégua, o corpo na curvatura do traço, os passos amarrotados. Sentia a levíssima melancolia do outro lado da tela como se a dança, gritada no silêncio, lhe trouxesse o nome de Sorrow. Olhos semi-cerrados, reinventava imagens nas mãos nuas, reinventava-as até lhe sangrarem os dedos. E no interior das imagens, a música - antiquíssima melodia - na leveza dos gestos: don’t fool yourself / life is too good to last. Só assim, perdurava em Saskia, o perfil ausente de Sorrow.



foto de katia chausheva

12.2.07













sandro botticelli


today is the first day of my life